logo
Gente das Vertentes
     

20/09/2019
Temperado com coragem e amor

Como o Grotão, em Prados, transformou uma 'loucura de família' em empreendimento, referência e ponto de encontro para amantes da Gastronomia de todo o mundo

Foto: Deividson Costa

Após 2,5km da área urbana em Prados, duas coisas mostram ao visitante que, de fato, ele chegou ao Grotão: o cheirinho inconfundível de boa comida e o sorriso largo de Nejadir Velho de Rezende, a simpática Dona Nini.

De óculos escuros após passar por uma recente cirurgia de catarata, ela explica que o acessório foi o jeito rápido para se recuperar, lidar com a claridade e, ainda, fazer o que mais ama: estar em uma cozinha. Algo que repouso algum tira dela. Pouco antes de se submeter ao procedimento, ouviu do oftalmologista que o vapor das panelas traria danos à visão recém-operada. Teimosa e apaixonada por receitas simples, bons temperos e os sucessivos “hmmmm!”de quem conhece seus dotes culinários, a obstinada Dona Nini tentou negociar:

-Já que não posso cozinhar, será que tenho permissão pra pelo menos lavar os talheres? Só não me peça para ficar parada, por favor.

Conseguiu o aval que precisava e lá se foi a simpática senhorinha de 70 anos cuidar do amado Grotão. Mesmo se distanciando, por um tempo, das panelas e fogões em si. Doeu, mas também houve certa tranquilidade.

"Eu nem sabia como era um. Muito menos imaginava que feijão tropeiro e mexidão pudessem fazer sucesso. Isso pra mim era comida de pobre e não fazia sentido alguém pagar por ela"

Além de cozinhar, Dona Nini ostenta outros dois talentos: o de empreender e o de ser mãe. Ao misturar as duas características, uniu cinco filhos no negócio que já comemora duas décadas e viu mãos tão habilidosas quanto as dela transformarem o restaurante pradense em um exemplo de que bom sabor e perseverança também estão no DNA.

 

Loucura

-Pode anotar, mãe. Vai vir gente de São João del-Rei almoçar aqui.

A ideia de Márcio, conhecido como Chiquinho, parecia ficção 20 anos atrás. “Não entrava na minha cabeça a possibilidade de alguém pegar estrada para almoçar aqui. Quando começamos, esse espaço era o que qualquer um poderia chamar de ‘fim de mundo’”, brinca Dona Nini em referência ao local onde hoje funciona o Grotão, um imóvel rural em que, por décadas, funcionou uma fábrica de polvilho.

“Era do meu pai. Mas quando faleceu, ficou tudo parado”, conta Marineia de Fátima Rezende, uma dentre os cinco filhos do casal (que teve 11) a cuidar do restaurante. Dona Nini confirma. “Ele foi tropeiro por muitos anos e cuidava desse negócio também. Quando partiu, acabou tudo. Fui cuidar dos meus filhos de outro jeito. Fazia crochê, assava biscoitos. Até que o Chiquinho veio com a ideia de abrir um restaurante. Eu mesma pensei que ele havia enlouquecido”, brinca.

“Meu marido foi tropeiro por muitos anos. Quando partiu, acabou tudo. Fui cuidar dos meus filhos de outro jeito. Fazia crochê, assava biscoitos"

Então, afinal, de onde veio a ideia mirabolante? “Minha mãe sempre foi cozinheira de mão cheia. Cresci vendo a casa lotada de visitas e com mesa para 30 ou 40 pessoas todo final de semana. Passou a vida fazendo esses almoços gigantescos e ganhando elogios. Então o meu irmão imaginou que o talento dela renderia um negócio. Teve uma visão que não tínhamos”, confessa Marineia.

Dona Nini, a protagonista dessa história, menos ainda. “Eu? Restaurante? Minha filha, eu nem sabia como era um. Muito menos imaginava que feijão tropeiro e mexidão pudessem fazer sucesso. Isso pra mim era comida de pobre e não fazia sentido alguém pagar por ela”, gargalha. Chiquinho acabou vencendo pela insistência. O Grotão abriu as portas, atraiu clientela que cresceu, se solidificou e se espalhou pelo mundo. Hoje, mais do que clientes de São João del-Rei, o estabelecimento já registrou visitas de consumidores de pelo menos 25 países. E como carros-chefe do cardápio tem as especialidades que Dona Nini entendeu, com o tempo, serem alimento não só para o estômago, mas para a alma.

 

Vertentes Cultural

A história de D.Nini foi narrada na edição nº6 da revista Vertentes Cultural, publicação gratuita lançada todo semestre pela nossa cooperativa. Você pode encontrar a versão impressa em uma de nossas 19 agências ou baixar um de seus números (desde o início) clicando aqui.

WhatsApp Email LinkedIn Google+