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Gente das Vertentes
     

31/08/2019
Nome de santo, alma de herói

A trajetória do franciscano que, de passo em passo, cuidado em cuidado, abraçou famílias em vulnerabilidade de São Tiago

Foto: Deividson Costa

Um bem-feitor? Um profeta? Um apóstolo? “Não. Sou apenas um homem de fé”, define o rapaz de semblante sereno e sorriso fácil atrás de barba espessa que nos recebeu na entrada do Oratório Coração de Jesus, casa de caridade em São Tiago.

O espaço atende, atualmente, mais de cem crianças entre 8h30 às 17h – quando não estão na escola, claro. Dessas, pelo menos 40 vão até lá todos os dias e recebem o mais simples que alguém pode oferecer: amor e atenção em forma de alimento, entretenimento, diálogo, lições de vida. A maior delas vem de Tiago Eduardo de Paula, idealizador da iniciativa.

“Peregrinei, andei sob sol, pedi abrigo na zona rural, conheci pessoas de coração incrível. Mas cometi excessos nessa busca e acabei adoecendo, caí prostrado. Parecia que ia morrer”

Ex-funcionário público com estabilidade, casa, terreno, carro e namorada, Tiago substituiu tudo pelas únicas posses que ostenta hoje: uma túnica semelhante à de São Francisco, sonhos e calos nos pés como resultado de caminhadas em estradas de toda a região. “Peregrinei, andei sob sol, pedi abrigo na zona rural, conheci pessoas de coração incrível. Mas cometi excessos nessa busca e acabei adoecendo, caí prostrado. Parecia que ia morrer”, conta. Não foi a primeira vez.

Aos 17 anos, logo depois de terminar o segundo grau e no auge da adolescência, teve um dos braços decepados numa máquina. “Foram os dois segundos mais assustadores da minha vida e o princípio de meses intermináveis de recuperação. Cheguei a pensar no fim. Mas sempre vinha mais um dia”, lembra. O que Tiago não sabia é que aquela seria apenas a primeira das provações. E não foram poucas.

 

A “loucura”

Perder o braço não foi o pior momento da vida do homem com nome e sobrenome de santo. Segundo ele, a pior fase veio depois, quando sentiu que perdia a sanidade. “Eu não via graça em nada. Comecei a me sentir sufocado. Não tinha razões pra levantar da cama. Viver era pesado demais. E nada que me oferecessem, nada que acontecesse me tirava daquilo. Eu me sentia dentro de uma panela de pressão sem conseguir explodir”.

"Eu me sentia dentro de uma panela de pressão sem conseguir explodir”

Foi então que, num rompante, pediu demissão da Prefeitura, onde trabalhava há cinco anos como agente de impostos. “As pessoas me reprovavam, me olhavam diagnosticando loucura ou tentavam me convencer do contrário. Nos últimos dias de trabalho minha sala virou ponto de peregrinação e o que eu mais ouvia era: ‘Tem certeza’?”.

 

A transformação

Tinha. E bateu o pé na decisão inclusive frente à família, que acreditava que tudo não passava de “estafa”. Aos poucos, Tiago provou as próprias convicções e convenceu a comunidade. Contra tudo e todos, saiu em busca da espiritualidade que aflorava e de respostas para perguntas que o assombravam. Se isolou – e se encontrou.

Restava, agora, conseguir apoio para realizar o maior dos sonhos: resgatar vidas. Mas antes precisava conquistar adeptos para as utopias que até então nutria sozinho. “Quando voltei do meu retiro franciscano, já com a aparência que tenho hoje, sentia os olhares nas minhas costas, as interrogações. Então me aproximava, cumprimentava, conversava um pouco. Aí as pessoas paravam de ter medo. Jamais as culpei. Eu mesmo me estranhei muito tempo”, ri.

“Quando voltei do meu retiro franciscano, já com a aparência que tenho hoje, sentia os olhares nas minhas costas, as interrogações. Então me aproximava, cumprimentava, conversava um pouco. Aí as pessoas paravam de ter medo. Jamais as culpei. Eu mesmo me estranhei muito tempo”

Aos poucos, porém, Tiago ganhou confiança e simpatia. Os pais cederam um terreno, viajantes doaram materiais de construções, grupos religiosos se organizaram para levantar fundos e, com eles, levantar estruturas. Hoje, apesar da simplicidade, a Coração de Jesus está de pé. E segue caminhando. “Graças a Deus. Não sei o que seria dessas crianças ou mesmo de mim se não tivéssemos essa luz. Pode parecer pouco pra você ou pra quem passa por aqui, mas esse tantinho faz muita diferença e mudou a minha vida também”, confessa uma das colaboradoras do lugar, Nilza Sampaio. E como faz.

Durante a entrevista à Vertentes Cultural, Tiago interrompeu a conversa várias vezes com cordiais “posso parar um pouquinho?” para atender pais que chegavam ao local com os filhos e mudavam de feições ao ultrapassar o portão simples da Coração de Jesus. Alguns iam ao espaço, naquela hora, somente “para deixar um ‘oi’”. Incrivelmente, houve quem entrasse com semblante preocupado, cansado, mas saísse do Oratório sorrindo após um “Deus te abençoe” e cinco minutos de atenção vindos de Tiago. Uma das crianças que chegou no colo da mãe, de apenas 10 meses, avistou o religioso a mais de 15m metros de distância e, de lá, estendeu os braços em direção a ele enquanto se agitava e gargalhava. Só depois quis se juntar a outros bebês.

A fé

Tiago é dessas pessoas que não rezam. Ele dialoga com Deus. E ensina isso às crianças que passam pelo Oratório. Apesar do nome, aliás, o local não tem paredes, bancos, altares. Trata-se de uma área aberta com pomares plantados em quase metade do terreno. Na outra parte, um mini-parquinho e uma quadra de areia foram improvisados com pedaços de madeira, fileiras de tijolos pintados e brinquedos doados pela comunidade. Vivem lotados. E é de lá que se escutam as risadas e os gritinhos de diversão de meninas e meninos com idade entre 1 e 13 anos que só param de brincar para acompanhar o “tio” Tiago em alguma atividade.

“Já tive despensa vazia aqui. As crianças chegavam famintas e eu não podia negar o que elas precisavam. Mas no dia seguinte vinha a dificuldade ou histórias pesadas de famílias em que faltava tudo e eu não podia ajudar. Foi com a chegada dessas doações que as coisas mudaram. E não tem nada mais bonito do que ver alguém trazer um pouco do seu trabalho, do seu sustento, pra ajudar. A multiplicação de pães começa da multiplicação da boa-vontade”

Ali, elas desenham, escrevem, conversam e se alimentam em uma pequena cozinha construída aos poucos e equipada com simplicidade, mantida com doações diárias de padarias da Terra do Café com Biscoitos e itens de cesta básica arrecadados no comércio. Para o idealizador da Coração de Jesus, não se trata de litros de leite, pães, pacotes de quitutes. São milagres. “Já tive despensa vazia aqui. As crianças chegavam famintas e eu não podia negar o que elas precisavam. Mas no dia seguinte vinha a dificuldade ou histórias pesadas de famílias em que faltava tudo e eu não podia ajudar. Foi com a chegada dessas doações que as coisas mudaram. E não tem nada mais bonito do que ver alguém trazer um pouco do seu trabalho, do seu sustento, pra ajudar. A multiplicação de pães começa da multiplicação da boa-vontade”, comenta Tiago.

Muitos dos meninos e meninas que vão à entidade, inclusive, não contam com refeições frequentes em casa. “Cada pequeno aqui tem seu fardo, o carrega nas costas e nem por isso para de sorrir. É incrível a força desses meninos. Ela só precisa ser canalizada, transformada em esperança, em fé. Criança tem que brincar, ver outras crianças, saber que há um mundo bom fora de casa e ir pra escola. Só assim serão adultos melhores”, prega.

 

As crianças

Com a mesma coragem com que entrou em um funeral aleatório em Ritápolis e rezou um terço para abençoar a alma que partia anos atrás, o franciscano interrompe a farra dos baixinhos e os chama para orar. “É rapidinho. Vamos agradecer a Deus por você ter fôlego pra correr tanto”, argumenta enquanto afaga a cabeça de Brayan, 12 anos, um garotinho espoleta que há cinco frequenta o espaço e já sabe o que quer ser quando crescer: “Quero ser como o Tiago”. O mesmo diz o mais velho, David, prestes a completar 14 anos. “Se me perguntar o que aconteceu depois que passei a vir pra cá, eu não sei dizer ao certo. Mudou tudo. A minha vida é melhor aqui, brincando, e sei que volto pra casa melhor também, pronto pra ajudar minha família. Tô crescendo e quero oferecer isso pra mais gente”, garante.

 

Vertentes Cultural

A história de Tiago foi narrada na edição nº3 da revista Vertentes Cultural, publicação gratuita lançada todo semestre pela nossa cooperativa. Você pode encontrar a versão impressa em uma de nossas 19 agências ou baixar um de seus números (desde o início) clicando aqui.

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