logo
Gente das Vertentes
     

09/08/2019
Conheça a história de Zé Carreiro, o descendente de escravos que luta pela sobrevivência do Congado em Coronel Xavier Chaves

Nesta semana, nossa cooperativa lança a editoria Gente das Vertentes. Aqui, você vai encontrar histórias de perseverança, fé, empreendedorismo e, claro, cooperativismo

Quando um barranco o soterrou na Serra do Cipó e uma enxada desesperada de quem o procurava quase o acertou no crânio em cheio, José do Rosário Anacleto disse pensar em duas coisas: Nossa Senhora do Rosário e respirar. “Eu estava perdendo os sentidos, mas ouvi alguns cochichos preocupados e pensei: ‘Não vou sobreviver’”, conta vivíssimo aos 83 anos. A 285km dali, o peito apertado de uma mãe, pressentindo o que acontecia, também clamava pela santa.

Zé Carreiro, como é conhecido, era um adolescente de 17 anos. Décadas mais tarde, aos 52, um outro milagre o livrou da morte: desta vez trabalhando no corte de cana, escapou com poucos ferimentos do tombamento de um caminhão – acidente fatal para um de seus sobrinhos. “Fui salvo duas vezes por algum motivo. Na terceira oportunidade, só Deus sabe”, ri resiliente.

O desespero, no entanto, não é o único momento de oração do homem que se entregou a três casamentos com 16 filhos, 20 netos e seis bisnetos. A prece, na verdade, é rotina do aposentado, figura ilustre em Coronel Xavier Chaves. Na cidade conhecida por suas esculturas, aliás, foi o primeiro morador a ser homenageado com uma estátua de pedra-sabão. Reconhecimento por sua arte: a de manter vivo o Congado. 

 

Devoção

As duas maiores dedicações surgiram na vida de Zé Carreiro na adolescência. Aos 12 anos, a passagem de um grupo de Congado, vindo de Ibituruna, o encantou. Nada que fosse novidade. O pai, Miguel Anacleto, era um apaixonado pelas celebrações de origem africana e tentava ensina-las ao filho. Daquela vez, porém, o fascínio se transformou em paixão e bateu no peito. Virou rotina. Dali em diante, nunca mais parou de gritar orações rimadas nas ruas enquanto marcava o ritmo com instrumentos de percussão – às vezes até improvisados.

“Fui salvo duas vezes por algum motivo. Na terceira oportunidade, só Deus sabe”

Dedicado, chegou a caminhar mais de 30km entre Coronel Xavier Chaves e Prados. Escolha própria e honra. “Meu pai dizia sempre: ‘Quando eu morrer, você fica’”, lembra. Miguel, que chegou a sentir na pele os resquícios escravocratas da região, era rígido na educação dos filhos. Conheceu uma senzala, passou fome, não acreditava – no início do século XX – que negros como ele tivessem chances de sobreviver além do trabalho.

Por isso mesmo, não apoiou que os quatro filhos frequentassem a escola. “A minha mãe se chamava Joana Paula dos Anjos. E sempre me via chorar. Eu queria aprender a ler. Mas meu pai respondia que, nesse caso, eu ia me alimentar com lápis e papel na casa do professor. Parece duro. Mas era a realidade da época... O que nos restava”, lamenta.  

 

Trabalho

Desde os 13 anos, então, Zé Carreiro se dedica à labuta. Criança que comia apenas mingau e angu, ele é hoje um senhor que comemora “cada grão de arroz e feijão na mesa” e se orgulha de não se permitir a excessos: “Nunca bebi, nunca fumei. Tô aqui com mais de 80 plantando e colhendo porque cuidei de mim. Precisei”, conta.

Todos os dias, de 6h às 14h, o aposentado levanta “enxada, machado e foice” pra cuidar da terra. Atua onde quer que o peçam para ir e só descansa com a sensação de dever cumprido. Apaixonado por Coronel Xavier Chaves, percorreu algumas cidades do Estado oferecendo mão-de-obra, mas sempre retornou. De lá, confessa, só sai para morar em Resende Costa, terra dos sonhos sem que consiga explicar o porquê. “Sinto que preciso viver um tico de vida lá”, sorri.

Maria Aparecida Silva, sua terceira esposa, apoia a possibilidade. Mas insiste no “um dia de cada vez”. É graças a ela, inclusive, que Zé Carreiro persiste na Banda de Congado Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, grupo oficial xavierense. “Eu desanimo, ela incentiva. Às vezes até vai junto”, comemora.

 

“Nunca bebi, nunca fumei. Tô aqui com mais de 80 plantando e colhendo porque cuidei de mim. Precisei”

É que, apesar da felicidade estampada no rosto, do uniforme sempre impecável, dos chapéus artesanais brilhantes e do vozeirão ouvindo quarteirões acima, Zé Carreiro também desanima. “Hoje somos umas 12 pessoas no grupo. A maioria na Terceira Idade. Jovens não nos acompanham nem se interessam em levar o que fazemos adiante. Os tempos são outros e não sei se teremos congadeiros no futuro”, confessa com um suspiro pesaroso.

Um minuto depois, porém, se recompõe. Para o congadeiro, sua relação com a tradição se assemelha ao casamento e só se dissolve com a morte. “Casei três vezes acreditando no amor e na família. Nunca me separei porque quis, porque cansei de uma história, porque desisti. Disse adeus a duas esposas pelo motivo mais difícil... Enviuvei”, diz. E completa: “Eu defendo com a mesma firmeza minha vida no Congado. Sou apaixonado, recebi um dom lá do céu.

 

Força

“Vamo rezar com fé, vamo ter devoção. Vamo fazer oração na igreja de São Sebastião”. A canção, escrita pelo próprio Zé Carreiro, sai fácil da garganta estrondosa dele, que chega a passar 12 horas comandando o Congado.

Não sem antes fazer sua oração pessoal – algo que nunca acontece dentro de casa. Para ele, é “do lado de fora, no terreiro”, que a conexão com Deus acontece melhor. E é às 4h, antes mesmo de o sol nascer, que gosta de se fazer ouvir, mesmo orando em silêncio.

“No tempo do cativeiro, tinha branco que batia e o preto gemia. Coitados de nós. Hoje não tem corrente mais. Parado só fico no caixão”

Em setembro, quando a Festa de Nossa Senhora do Rosário acontece em Coronel Xavier Chaves, a prece se soma ao coração acelerado – e ele só se acalma mais tarde, quando após percorrer as ruas, Zé Carreiro chega à igreja da comunidade.

Mas se engana quem pensa que uma boa festa pagã não tem espaço na vida dele. No Carnaval, é puxador oficial de um bloco e gasta o gogó em marchinhas antigas ou sambas clássicos, “igual ao Jamelão”. Tudo para celebrar a vida e a liberdade. “No tempo do cativeiro, tinha branco que batia e o preto gemia. Coitados de nós. Hoje não tem corrente mais. Parado só fico no caixão”. E ponto final.

 

Vertentes Cultural

A história do morador de Coronel Xavier Chaves foi narrada na edição mais recente da revista Vertentes Cultural, publicação gratuita lançada todo semestre pela nossa cooperativa. Você pode encontrar a versão impressa em uma de nossas 19 agências ou baixá-la clicando aqui.

WhatsApp Email LinkedIn Google+